
I – Três anos antes de sua morte, Vicente Huidobro estava servindo na Segunda Guerra Mundial. No dia 17 de maio de 1945 ele
escreve uma carta a seu amigo, o pintor Luis Vargas Rosas: Berlim está em pedaços.
O poeta fala sobre o quanto ele foi afetado pela guerra:
No te imaginas lo que
he vivido en sólo seis meses. Nadie se imagina lo que es esto. Quien no lo haya experimentado no puede tener una idea. Yo estoy contento de haber pasado estas experiencias y por nada del mundo
querría no haberlas pasado. Todos me dicen que soy otro ser, que debería hasta cambiar de nombre. ¿Por qué no? Acaso lo haga. Borrarlo todo y empezar la vida de nuevo. No se puede negar que es
tentador.
E complementa:
Mis
poemas van quedar heridos por muchos años. Pero no importa; nunca he escrito
mejor.
II – Do prefácio até o Canto VII, encontramos o poeta em seu desamparo.
Altazor, com seu pára-quedas em queda reafirma a incrível viagem funerária da palavra poética:
E agora meu pára-quedas caiu de sonho em sonho pelos espaços da morte.
18 de maio de 2008
par Barrosjose
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Penso em Theodor Adorno e na sua posição de uma prática de não-violência. Em 1969, ele afirmou em entrevista, na revista
alemã Der Spiegel: embora eu tivesse elaborado um modelo
teórico, não poderia ter imaginado que as pessoas quisessem realizá-lo com bombas. Seus escritos não trazem nenhum modelo para quaisquer ações.
Exercer a crítica não é dizer como devemos fazer melhor as coisas. No entanto, é uma forma de se opor. Mas, não será
também a teoria uma forma genuína da prática? A teoria, em virtude da sua própria objetividade, pode ter muito mais conseqüências práticas do que se for submetida de antemão à prática. Aliás, a
reflexão que compartilho com Adorno aponta para o caráter ilusório das propostas dos estudantes, em 1968, baseadas somente em um ativismo – uma espécie infeliz de junção da teoria com a prática
–, muitas vezes, destrutivo e com poucos efeitos.
Certa vez, Adorno disse que a teoria crítica quer erguer a pedra sob a qual incuba o monstro. Entretanto, erguer a pedra é bem diferente de jogar pedras! O desespero é sempre o que move as pessoas, já que elas sentem
que têm pouca força para modificar a sociedade.
E é claro que a posição de Adorno admite exceções. Quando estamos diante de um fascismo
real, só se pode reagir com violência. Contudo, o filósofo se nega a seguir aqueles que, após
o assassinato de incontáveis milhões nos estados totalitários, ainda preconizem a violência.
A reflexão de Adorno está calcada em 20 anos de trabalho crítico em relação à sociedade, às indústrias culturais e aos
sistemas totalitários, além de outros temas como a estética e a literatura. Ele mesmo diz que teria que renegar toda a sua vida se não se recusasse a participar do eterno círculo de violência contra violência.
17 de maio de 2008.
par Barrosjose
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Paris, 10 de maio de 1968.
O poeta Paul Celan escreve em sua agenda: “Noite das barricadas”.
Durante os protestos estudantis, Celan, acompanhado de seu filho Eric, saía às ruas de Paris entoando cantos de protesto
ao lado da multidão ávida por mudanças. Seu otimismo durou poucos meses. Em agosto de 1968, os tanques soviéticos invadem Praga, cidade de Rilke e de Kafka. Celan permanece com uma profunda
emoção.
Ele escreve à Gisèle Celan-Lestrange falando sobre este momento: “Os problemas da poesia se colocam para mim
com grande acuidade, os acontecimentos – você imagina o quanto eu sou afetado por estes da Tchecoslováquia – me solicitam no meio disso que eu escrevo, disso que eu experimento escrever” (23
de agosto de 1968).
O poeta procura manter viva a memória das datas.
15 de maio de 2008.
par Barrosjose
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Um diretor que escreve, não um escritor. A lente de Antonioni faz escrita. Letras que se transpõem em
imagens. Imagens que apontam letras.
Letras que de novo inspiram outras imagens. Letras suas, letras de outros. Poetas, poemas.
Quem é o terceiro que sempre caminha ao seu lado? pergunta Antonioni a
partir do verso de Eliott. Na insistência do verso, repetidas vezes viajando pelo seu pensamento, pode surgir um filme. Não me dá sossego aquele terceiro
que caminha sempre ao lado. Quem é o terceiro? Indaga o cineasta Antonioni.
Respondemos com Ponge: o terceiro é o texto. E só nos dá sossego quando nasce.
par Barrosjose
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Uma folha branca está cheia de caminhos, nos conta Jabès.
Grão de areia, verdes chãos de vazios, escrita ainda à vista. Ausência de texto, fogo a queimar a folha branca, letras flamejantes
escrevem língua e sangue. Mas,
O começo do pensar se dá, nas palavras de Lévinas, “por traumatismos ou tateamentos, aos quais não sabemos dar uma forma verbal: uma
separação, uma cena violenta, uma brusca consciência da monotonia do tempo”.
Ler, caminho das folhas...
par Barrosjose
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