No texto Lituraterra (1971), Jacques Lacan começa a construir o que poderíamos chamar de uma teoria da letra, se afastando da ênfase quase sagrada dada ao significante. A primazia do significante vai perdendo o seu poder totalizante. Há nesse texto uma passagem da letra literal, desenvolvida por Lacan em Instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud (1957), para a letra litoral. Uma letra que faz borda e que está situada no real. É isso que a difere do significante, que se situa no simbólico. É preciso esclarecer aqui, que o real lacaniano não tem nenhuma relação com a realidade. Ele é o que brota sem representação do inconsciente.
Lembremos a experiência de Lacan com a pintura japonesa. Em relação a essa pintura, ele lê o território da Sibéria como uma caligrafia, como pura pegada que opera no deserto sem significar. É a operação da letra efetuando-se, pois o que fica visível a olho nu é um traçado de marcas, relevos, e sinais gráficos. Diz Lacan: Quem sabe se o fato de que possamos ler esses regatos que eu vi cobrindo a Sibéria como vestígio metafórico da escrita, não se lia/liga — observem que em francês ligar e ler (lier e lire) têm as mesmas letras — a algo que vai mais além do efeito da chuva, e que o animal não tem a menor oportunidade de ler como tal? (Seminário 20 – 15 de maio de 1973)
Na aproximação à pintura japonesa e depois em relação à escrita oriental, Lacan esclarece que se interessa pela concepção singular dessa pintura, onde não há oposição entre sujeito e o mundo que o representa; a pintura do calígrafo com seu traço de pincel ordena um caos interno. Este caos interessa ao psicanalista, na medida em que do caos pode-se inventar algo, sem ficar aprisionado a uma representação.
A teoria lacaniana caminha do significante em direção à letra. A tentativa de diferenciar a letra do significante é crucial para nos ajudar a entender a desconstrução lacaniana da palavra. A partir de Lituraterra, Lacan explica que se existe um saber no real, este saber só pode ser da ordem da letra e, portanto da ordem da escrita. O que constitui o inconsciente é a letra com o seu movimento e liberdade.
Lacan trata o significante como aquele que abarca o campo das relações de diferença, das representações, da ausência de positividade própria ou de qualidade, e mesmo de identidade. A letra, por outro lado, é marcada por qualidades próprias, é idêntica a si mesma e, em um discurso, é passível de deslocamentos e permutações. Ou seja, ela é manejável. Assim, podemos dizer que a letra, por ser deslocável, é transmissível.
O significante nada transmite e não se transmite: ele representa. Já a letra aponta também a esperança que Lacan tinha de transmissão da psicanálise promovida pela lógica e pelos matemáticos.
Do estudo da letra, Lacan caminha para o conceito de lalangue (lalíngua na tradução proposta por Haroldo de Campos) que traz em sua definição uma impossibilidade e aponta a negação do universal (há uma impossibilidade da universalidade da língua). Na teoria lacaniana não há letra sem lalangue.
Na verdade, o próprio termo surge de um lapso de Lacan no seminário O saber do psicanalista (novembro de 1971). Ele estava falando da psicanálise e lembrou que, em torno do ano de 1961, havia começado a formular que o inconsciente estava estruturado como uma linguagem.
Cito em tradução livre: Havíamos encontrado um negocio formidável: os dois tipos (Laplanche e Pontalis) que melhor tinham podido trabalhar nessa linha, tecer este fio, havíamos lhes dado um lindo trabalho: Vocabulario de Filosofía. Que digo?, "Vocabulário de Psicanálise". Vocês vêem o lapso, hein? Enfim, isso vale pelo Lalande.
Comento que Lacan passa por Laplanche (Vocabulário de Psicanálise), e Lalande (vocabulário de filosofia) até chegar a Lalangue.
E segue o discurso: Lalangue (lalíngua), como eu escrevi agora – não tenho quadro-negro... Bom, escrevam lalangue em uma palavra; é assim como a escreverei de agora adiante! Olhem como são cultos! Então, não se ouve nada! É a acústica? Querem fazer a correção? Não é um “d”, é um “g”. (Lalangue surge a partir de uma operação de letras).
Lacan prossegue dizendo: eu havia posto na
ordem do dia este termo saussuriano: "lalangue".
(A
linguagem, sem dúvida, está feita de lalangue. Ela é uma elucubração de saber sobre lalangue. Mas, o inconsciente é um saber, uma habilidade, um ‘savoir-faire’ com lalangue, acrescenta o
psicanalista).
Ainda mais: o inconsciente estruturado como linguagem agora é lugar de inscrição e de escrita.
Caminhando com letras, encontramos a escrita – escrita que traz em suas bordas uma oscilação de linhas, oscilação entre o escrever como o entende a lógica matemática, isto é, esvaziado de significação, e o jogo do equívoco de lalangue, cujo modelo é Finnegan’s Wake de James Joyce, onde o sentido desaparece.
10 de agosto de 2008