O poema “Fuga da morte” de Paul Celan foi escrito, em 1948, em meio aos efeitos do horror dos campos de concentração. Ele surge depois da experiência
traumática vivida pelo poeta na guerra.
Os versos de “Fuga da morte” estão povoados de música, poesia e religião. Bach, Wagner, Goethe, Heine e trechos da Bíblia atravessam
todos os versos. Este texto, tomado pela cena do horror nazista, está organizado em forma musical. A experiência invocada no poema se refere ao fato de que os guardas SS do campo obrigavam os
violinistas judeus a tocarem música, em especial, uma peça conhecida como El tango de la muerte. Pablo Fuentes, em seu texto “El arte de la fuga”, assinala que esta música é baseada no
tango Plegaria do músico argentino Eduardo Bianco. Os guardas obrigavam os músicos judeus a tocarem esse tango durante trabalhos, marchas, castigos e execuções.
O poema se apresenta em quatro estrofes, de versos livres e métrica irregular. Estrofes, que carregam as vozes apagadas dos
prisioneiros, fazendo contraponto às ordens dos verdugos, com o fundo musical dos violinos. Cada uma destas estrofes começa com o oxímoro Schwarze Milch (Leite Negro). Entre as estrofes, se
alternam duas transições e uma coda final (coda é um período musical brilhante e vivo que termina a
execução de um trecho).
O poema, em sua estrutura formal, se apóia sobre o princípio construtivo da fuga musical. Paul Celan utiliza os recursos musicais da fuga, fazendo uso de distintas vozes no texto.
Eis o poema:
Fuga da morte
Leite negro da aurora nós o bebemos ao crepúsculo
nós o bebemos ao meio-dia e pela manhã nós o bebemos à noite
bebemos e bebemos
cavamos uma sepultura nos ares lá não se fica apertado
Um homem mora na casa brinca com as serpentes escreve
escreve quando escurece na Alemanha teus cabelos de ouro
[
Margarete
ele escreve isso aparece diante da casa e as estrelas cintilam ele
[ chama sua matilha
chama seus judeus manda cavarem na terra uma sepultura
ele nos ordena ponham-se a tocar agora para a dança
Leite negro da aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos pela manhã e ao meio-dia nós te bebemos ao crepúsculo
bebemos e bebemos
Um homem mora na casa brinca com as serpentes escreve
escreve quando escurece na Alemanha teus cabelos de ouro
[
Margarete
Teus cabelos de cinzas Sulamith nós cavamos uma sepultura nos
[ ares lá não se fica apertado
Ele grita escavem mais fundo na Terra vocês aí os outros lá
[ cantem e toquem
ele agarra o ferro à cintura ele o agita no ar seus olhos são azuis
finquem mais fundo as pás vocês aí os outros lá continuem a tocar
[
para a dança
Leite negro da aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia e pela manhã nós te bebemos ao crepúsculo
bebemos e bebemos
um homem mora na casa teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinzas Sulamith ele brinca com as serpentes
Ele grita toquem mais suave a morte a morte é um mestre da Alemanha
ele grita toquem mais grave os violinos e se elevem como fumaça no
ar
assim hão de ter uma sepultura nas nuvens lá não se fica
apertado
Leite negro da aurora nós te bebemos à noite
nós te bebemos ao meio-dia a Morte é um Mestre da Alemanha
nós te bebemos à tarde e pela manhã bebemos e bebemos
a Morte é um Mestre da Alemanha seu olho é azul
ele te acerta com uma bala de chumbo te acerta em cheio
um homem mora na casa Margarete teus cabelos de ouro
ele atiça sua matilha contra nós dá-nos uma sepultura no ar
brinca com as serpentes e sonha a Morte é um Mestre da
[ Alemanha
teus cabelos de ouro Margarete
teus cabelos de cinzas Sulamith
(tradução
de Vera Lins)
A barbárie é apresentada de forma poética, trazendo velamentos e descentramentos no tema. Talvez, estes recursos poéticos nos permitam
ler o poema e encontrar o efeito estético esperado – a saber – o impacto de uma história ainda encoberta.
Nas quatro estrofes, o poema se inicia com o oxímoro leite negro e evoca metonimicamente a maternidade que recusa, trazendo à tona – veladamente – a questão da morte. Na verdade, o significante morte comparece, de
forma plena, na repetição do verso a Morte é um Mestre da Alemanha. É uma referência também aos judeus que eram queimados.
A linguagem cinzenta do poeta leva o leitor a se deparar com a vida nua dos homens dos campos de concentração, vida despojada de seus direitos.
Em tempos de banalidade e de guerra, a morte daqueles homens que foram exterminados foi roubada. E não só a morte foi
roubada, mas também o corpo. Celan fala deste corpo sem lugar: cavamos uma sepultura nos ares lá não se fica apertado.
A coda final apresenta a dramaticidade da diferença entre as mulheres Margarete e
Sulamith:
teus cabelos de ouro Margarete / teus cabelos de cinzas Sulamith.
Margarete representa o objeto de desejo de Fausto e a encarnação do amor romântico no sentido goethiano. Uma cena que evoca, ao mesmo
tempo, o desejo efetivo do mestre alemão – o Mestre da Morte – pela sua amada alemã, e a tradição da literatura melancólica alemã. Já Sulamith, é um emblema feminino evocado nos Cânticos dos Cânticos. Sinal de beleza, emblema do desejo, Sulamith porta o anseio pela judia amada. Ainda evoca
a melancolia bíblica e literária. Tanto na evocação de Margarete quanto na de Sulamith, os nomes são atravessados pelos mesmos desejos humanos. Há uma ressonância mútua. Porém há uma radical
diferença, amargo sinal destes tempos sombrios. Ironicamente, Celan apresenta este contraste que choca. Os cabelos de ouro de Margarete, do ideal ariano, e os cabelos de cinzas de
Sulamith, da beleza semita.
08 de junho de 2008