Samedi 14 juin 2008 6 14 /06 /Juin /2008 14:26



Arthur Rimbaud, em carta a Paul Demeny de 15.05.1871, diz que o poeta torna-se vidente através de um longo, imenso e estudado desregramento de todos os sentidos. Ele busca em si mesmo todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; prova todos os venenos, para guardar apenas a quintessência. O desregramento é vivido como regra. Aqui, também estamos pensando o desregramento de todos os sentidos indicando um desregramento da razão, da lógica, do pensamento, da consciência, da significação e do sentimento. O verbo dérégler em francês quer dizer: colocar em desordem, incomodar, perturbar.

O poeta contemporâneo Jean-Marie Gleize se aproxima de Rimbaud neste ponto do desregramento. Na poética de Gleize, o poeta experimenta um tumulto (émeute). Para ele, a palavra émeute contém a emoção e a dimensão subversiva e revolucionária da linguagem.

O fato de que a fórmula rimbaudiana – Je est un autre (Eu é um outro), por exemplo – é destinada a desorientar, a fazer mover as coisas, a fazê-las estourar, a fazê-las se redispor de outro modo na língua, amplia o sentido que Gleize dá ao vocábulo émeute. 

 

Há na escrita contemporânea uma dimensão tumultuada que traduz o nosso tempo.

 

 

 

14 de junho de 2008

Par Barrosjose
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Jeudi 12 juin 2008 4 12 /06 /Juin /2008 14:21



Há momentos em que o poeta deve amar não compreender (Claude  Royet-Journoud).

 

Jacques Roubaud pronuncia: eu não amo não compreender, mesmo sabendo que, muitas vezes, eu não compreendo.

No entanto, ele também experimenta não pensar que compreende. Pensar é bem diferente de amar. Roubaud não quer amar não compreender. Ele gostaria de saber.

 

É preciso saber, nós queremos saber, nós saberemos, profere o matemático David Hilbert.

 

O desejo de saber se impõe, matematicamente, ao poeta.

Mas...

Eu tento não ter muitas ilusões, portanto, finalmente, eu não sei (Jacques Roubaud).   

 

 

12 de junho de 2008

 

Par Barrosjose
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Mercredi 11 juin 2008 3 11 /06 /Juin /2008 03:36

 


Paul Celan estabelece um diálogo com o texto em prosa de Óssip Mandelstam, “O interlocutor”. Podemos relembrar que, quando o poeta escreveu seu livro DIE NIEMANDSROSE (A Rosa de Ninguém), ele o dedicou à memória de Mandelstam, poeta russo, assassinado pelo regime stalinista em 1938.

 No texto “O interlocutor”, Óssip Mandelstam compara o poeta ao navegador que, no momento crítico, lança ao mar uma garrafa lacrada. Nela está escrito o seu nome e o relato de seu destino. Vários anos se passam e um dia a garrafa é encontrada na areia. Aquele que encontra a garrafa (o leitor) lê a carta, toma conhecimento de sua data e das últimas vontades do morto. A carta, lacrada dentro da garrafa, estava endereçada a quem a encontrasse. Ele era o destinatário misterioso.

A carta (dentro da garrafa lacrada) assim como o poema, não está endereçada de maneira definida para alguém em particular. Entretanto, ambas têm destinatário: a carta é destinada a alguém que, por acaso, encontra a garrafa na areia, e o poema busca o leitor na posteridade. Em Celan, não há o leitor na posteridade, mas o leitor ninguém.

O poets escreve: Um poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem, (...) pode ser uma mensagem em uma garrafa, lançada na crença (nem sempre muito esperançosa) de que ela poderá em algum lugar e em algum momento chegar à terra firme. Assim, os poemas estão a caminho – têm rumo. Para onde, pergunta Celan. Os poemas caminham em direção a algo aberto, talvez a um tu endereçável, a uma realidade endereçável.

Celan segue Mandelstam quando o poeta postula a existência do interlocutor. Também parece concordar com o fato de não poder determinar quem vai ser este interlocutor. Celan, no entanto, introduz algo novo: o leitor ninguém. O poema não é mais endereçado a uma certa pessoa. O lugar do interlocutor é um lugar vazio que vem designar esta palavra: ninguém. O poema tem como destinatário Ninguém, e essa proposição Mandelstam não ousou pensar.     

A poética de Paul Celan introduz, então, uma nova forma de endereçamento. Nela, constatamos um projeto testemunhal singular no qual uma esperança trafega junto de uma desesperança. E é nesta incerteza de endereçamento, que talvez possamos encontrar uma realidade endereçável – no vazio da noite.

 

Par Barrosjose
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Dimanche 8 juin 2008 7 08 /06 /Juin /2008 20:14

 

O poema “Fuga da morte” de Paul Celan foi escrito, em 1948, em meio aos efeitos do horror dos campos de concentração. Ele surge depois da experiência traumática vivida pelo poeta na guerra. 

 

Os versos de “Fuga da morte” estão povoados de música, poesia e religião. Bach, Wagner, Goethe, Heine e trechos da Bíblia atravessam todos os versos. Este texto, tomado pela cena do horror nazista, está organizado em forma musical. A experiência invocada no poema se refere ao fato de que os guardas SS do campo obrigavam os violinistas judeus a tocarem música, em especial, uma peça conhecida como El tango de la muerte. Pablo Fuentes, em seu texto “El arte de la fuga”, assinala que esta música é baseada no tango Plegaria do músico argentino Eduardo Bianco. Os guardas obrigavam os músicos judeus a tocarem esse tango durante trabalhos, marchas, castigos e execuções.

O poema se apresenta em quatro estrofes, de versos livres e métrica irregular. Estrofes, que carregam as vozes apagadas dos prisioneiros, fazendo contraponto às ordens dos verdugos, com o fundo musical dos violinos. Cada uma destas estrofes começa com o oxímoro Schwarze Milch (Leite Negro). Entre as estrofes, se alternam duas transições e uma coda final (coda é um período musical brilhante e vivo que termina a execução de um trecho).

O poema, em sua estrutura formal, se apóia sobre o princípio construtivo da fuga musical. Paul Celan utiliza os recursos musicais da fuga, fazendo uso de distintas vozes no texto.

Eis o poema:

 

 

Fuga da morte

 

Leite negro da aurora nós o bebemos ao crepúsculo

nós o bebemos ao meio-dia e pela manhã nós o bebemos à noite

bebemos e bebemos

cavamos uma sepultura nos ares lá não se fica apertado

Um homem mora na casa brinca com as serpentes escreve

escreve quando escurece na Alemanha teus cabelos de ouro

       [ Margarete

ele escreve isso aparece diante da casa e as estrelas cintilam ele

                                                                          [ chama sua matilha

chama seus judeus manda cavarem na terra uma sepultura

ele nos ordena ponham-se a tocar agora para a dança

 

 

Leite negro da aurora nós te bebemos à noite

nós te bebemos pela manhã e ao meio-dia nós te bebemos ao crepúsculo

bebemos e bebemos

Um homem mora na casa brinca com as serpentes escreve

escreve quando escurece na Alemanha teus cabelos de ouro

                                                                                       [ Margarete

Teus cabelos de cinzas Sulamith nós cavamos uma sepultura nos

 [ ares lá não se fica apertado

 

Ele grita escavem mais fundo na Terra vocês aí os outros lá

                                                                            [ cantem e toquem

ele agarra o ferro à cintura ele o agita no ar seus olhos são azuis

finquem mais fundo as pás vocês aí os outros lá continuem a tocar

              [ para a dança

 

 

Leite negro da aurora nós te bebemos à noite

nós te bebemos ao meio-dia e pela manhã nós te bebemos ao crepúsculo

bebemos e bebemos

um homem mora na casa teus cabelos de ouro Margarete

teus cabelos de cinzas Sulamith ele brinca com as serpentes

 

Ele grita toquem mais suave a morte a morte é um mestre da Alemanha

  ele grita toquem mais grave os violinos e se elevem como fumaça no ar

assim hão  de ter uma sepultura nas nuvens lá não se fica apertado

 

 

Leite negro da aurora nós te bebemos à noite

nós te bebemos ao meio-dia a Morte é um Mestre da Alemanha

nós te bebemos à tarde e pela manhã bebemos e bebemos

a Morte é um Mestre da Alemanha seu olho é azul

ele te acerta com uma bala de chumbo te acerta em cheio

um homem mora na casa Margarete teus cabelos de ouro

ele atiça sua matilha contra nós dá-nos uma sepultura no ar

brinca com as serpentes e sonha a Morte é um Mestre da

         [ Alemanha

 

 

  teus cabelos de ouro Margarete

 

  teus cabelos de cinzas Sulamith

      

                                                                                                                (tradução de Vera Lins)

                                                                                                                  

 

A barbárie é apresentada de forma poética, trazendo velamentos e descentramentos no tema. Talvez, estes recursos poéticos nos permitam ler o poema e encontrar o efeito estético esperado – a saber – o impacto de uma história ainda encoberta.

Nas quatro estrofes, o poema se inicia com o oxímoro leite negro e evoca metonimicamente a maternidade que recusa, trazendo à tona – veladamente – a questão da morte. Na verdade, o significante morte comparece, de forma plena, na repetição do verso a Morte é um Mestre da Alemanha. É uma referência também aos judeus que eram queimados.

A linguagem cinzenta do poeta leva o leitor a se deparar com a vida nua dos homens dos campos de concentração, vida despojada de seus direitos.

Em tempos de banalidade e de guerra, a morte daqueles homens que foram exterminados foi roubada. E não só a morte foi roubada, mas também o corpo. Celan fala deste corpo sem lugar: cavamos uma sepultura nos ares lá não se fica apertado.

A coda final apresenta a dramaticidade da diferença entre as mulheres Margarete e Sulamith:

 

              teus cabelos de ouro Margarete / teus cabelos de cinzas Sulamith.

 

Margarete representa o objeto de desejo de Fausto e a encarnação do amor romântico no sentido goethiano. Uma cena que evoca, ao mesmo tempo, o desejo efetivo do mestre alemão – o Mestre da Morte – pela sua amada alemã, e a tradição da literatura melancólica alemã. Já Sulamith, é um emblema feminino evocado nos Cânticos dos Cânticos. Sinal de beleza, emblema do desejo, Sulamith porta o anseio pela judia amada. Ainda evoca a melancolia bíblica e literária. Tanto na evocação de Margarete quanto na de Sulamith, os nomes são atravessados pelos mesmos desejos humanos. Há uma ressonância mútua. Porém há uma radical diferença, amargo sinal destes tempos sombrios. Ironicamente, Celan apresenta este contraste que choca. Os cabelos de ouro de Margarete, do ideal ariano, e os cabelos de cinzas de Sulamith, da beleza semita.

 

 

 

 

08 de junho de 2008

Par Barrosjose
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Mercredi 4 juin 2008 3 04 /06 /Juin /2008 23:38


 

Vivemos sob a égide de um tempo de horror. Os homens precisam fazer um trabalho de escavação para não deixar o passado sepultado!

Em 1945, o comandante maior das Forças aliadas, General Eisenhower, ao encontrar as vítimas dos campos de concentração, ordenou que fosse feito o maior número possível de fotos, e fez com que os alemães das cidades vizinhas fossem guiados até aqueles campos, e até mesmo ajudassem a enterrar os mortos. O motivo, ele assim o explanou: que se tenha o máximo de documentação - façam filmes - gravem testemunhos - porque, em algum momento, ao longo da história, algum idiota pode vir a se erguer e dizer que isto nunca aconteceu.

Paul Celan, no discurso “O Meridiano” declara que talvez possamos dizer que em cada poema fica inscrito o seu ‘20 de janeiro’. Em 20 de janeiro de1942, os nazistas se reuniram em uma mansão à beira do lago Wansee, em Berlim, para decidir o destino dos judeus. A “solução final”, conforme eles então decidiram, para o “problema judaico” era a câmara de gás.

Devemos manter viva a memória de datas, recortar uma circunstância, trazer o poema à sua singularidade de acontecimento, dar fisionomia às datas, como dizia Walter Benjamin.

No texto Lectures de Paul Celan de Roger Laporte recolhemos: nós nos interessamos pela data como por um entalhe ou uma incisão que o poema traz em seu corpo [...], o poema começa por se ferir em sua data. Podemos dizer que a memória das datas, para Celan, tem relação com a memória dos crimes do fascismo, e, de modo geral, com a memória de todas as violências durante os séculos contra a humanidade. Cada poema de Celan porta um rastro destas datas.

 

04 de junho de 2008

Par Barrosjose
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Mardi 3 juin 2008 2 03 /06 /Juin /2008 03:34


A correspondência de Sigmund Freud com o escritor Romain Rolland marca o decisivo encontro de Freud com o mal-estar do ser vivente. Iniciada nos anos 20 e prolongada até 1931, esta correspondência terminou abruptamente com uma carta de despedida de Freud.   

Nas cartas, as diferenças se mostram de forma avassaladora. O encontro de Rolland é com a felicidade e o bem-estar, com uma sensação de eternidade, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – oceânico, por assim dizer. Ele dizia ter esta experiência total de encontro com a sua própria religiosidade. Demonstrava uma convicção a toda prova. Freud, na época, ficou bastante intrigado e buscou descobrir uma explicação psicanalítica para este sentimento.   

O escritor endereça a Freud uma carta datada de cinco de dezembro de 1927, na qual traz a questão do homem enquanto ser eterno. Freud responde ao amigo pensando sobre a noção do ser humano diante de seu desamparo, redigindo o seu ensaio O mal-estar na civilização. Em 20 de julho de 1929, Freud escreve uma carta, esclarecendo que o seu texto sobre o mal-estar não fará nenhuma avaliação do sentimento oceânico.

Na psicanálise, nos confrontamos com os limites do homem e sua finitude. No entanto, o escritor Rolland (em carta endereçada a León Tostoi), relata que, desde jovem, se sentia torturado pela idéia da morte. A vida, para ele, só seria aceitável se nós suprimíssemos a morte.

Em 1936, na ocasião do septuagésimo aniversário de Rolland, Freud escreveu um texto como uma carta aberta: Um distúrbio de memória na acrópole. Dizia-se velho e já no fim de sua capacidade de produção. Afirmava que tinha pouco a oferecer ao amigo, a não ser o dom de uma criatura que viu dias melhores.

 

02 de junho de 2008 

Par Barrosjose
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Samedi 31 mai 2008 6 31 /05 /Mai /2008 21:59

O trabalho da artista visual Regina Célia Pinto que se encontra no site http://pintor.tumblr.com traz uma reflexão sobre a cidade do Rio de Janeiro. Na presença do famoso dístico positivista “Ordem e Progresso”, recorrente em várias imagens (na série Bandeiras animadas), encontro, além de uma interessante utilização das cores, algumas imagens distorcidas que me motivam a escrever este texto.
A inscrição “Ordem e Progresso” é a abreviação do lema de autoria do positivista francês Auguste Comte, como sabemos: O Amor por princípio, e a Ordem por base; o Progresso por fim
Vivemos em um tempo onde a alienação transforma-se em intimidade, a desumanização, em humanidade, e a extinção do sujeito, em sua confirmação (Adorno). A noção de progresso humano, na atualidade, está em conflito. Os pilares das verdades mais conhecidas, que, no passado, deram alguma sustentação para o progresso estão despedaçados. Agora, quando olhamos em torno, nos encontramos em meio a um verdadeiro monte de entulhos daqueles pilares. 
Freud diz, no texto O Mal-estar na civilização, que a ordem é uma espécie de compulsão a ser repetida, compulsão que, ao se estabelecer como regulamento decide quando, onde e como uma coisa será efetuada, e isso de tal maneira que, em todas as circunstâncias semelhantes, a hesitação e a indecisão nos são poupadas. No entanto, os homens revelam uma tendência inata para o descuido, a irregularidade e a irresponsabilidade.
A cidade do Rio de Janeiro, em muitos momentos, se mostra sem castração e quando não há castração, não há perda de gozo. A cidade se move em meio a um avassalador gozo mortífero, não só da alienação que impera em toda a “orla marítima”, mas, sobretudo pelos jogos perversos estabelecidos pelos “poderes dominantes”. Além disso, o cidadão começa, pouco a pouco, a perder a possibilidade de exercer seus direitos.
O homo sacer, uma obscura figura do direito romano arcaico – introduzida por Giorgio Agamben para pensar o homem contemporâneo – é uma figura enigmática do direito romano. Ela nos mostra o ser humano esvaziado de todas as suas predicações de sujeito. Sua vida, que tinha sido consagrada a Júpiter, separada do resto das vidas da polis, não podia ser sacrificada (no sentido religioso ou ritual). O homo sacer podia ser morto por qualquer um impunemente, mas não devia ser sacrificado segundo as normas prescritas pelo rito. É interessante marcar, aqui, que esta concepção de homo sacer aponta para um homem que fica totalmente desvinculado da comunidade política. Permanece, portanto, entregue à vida nua. Essa figura retorna, segundo Agamben, no século XX com os campos de concentração. 
Para Slavoj Žižek, o homo sacer de hoje é o objeto privilegiado da biopolítica humanitária: aquele que é privado da humanidade completa por ser sustentado com desprezo. Um exemplo que Žižek nos dá do homo sacer foi o tratamento recebido pela população do Afeganistão, no momento dos ataques dos Estados Unidos. Quando um avião de guerra sobrevoava as cidades, nunca se sabia se ele iria lançar bombas ou pacotes de alimentos.
Os habitantes das favelas do Rio de Janeiro, também estão subordinados às leis de exceção. Muitas vezes, não podem sair para trabalhar e, em outras, não podem voltar para casa. No atual Rio de Janeiro, de uma maneira geral, a população está sujeita às balas perdidas ou a se expor a situações degradantes. 
O homo sacer é introduzido por Agamben também para que possamos pensar o estado de exceção, esse em que nos encontramos. O pensamento humano atualmente, em qualquer âmbito, deve estar confrontado com a estrutura da exceção.
Quando o estado de exceção se instaura como regra, o campo de concentração é um dos  espaços que se abrem. O estado de exceção antes funcionava como uma suspensão temporal do ordenamento com base numa situação factícia do perigo. Agora, ele adquire uma outra disposição espacial que se torna permanente, apesar de ficar fora do ordenamento normal. Assim, o que antes era exceção se torna regra. Isso quer dizer que não dá mais para fazer a distinção entre norma e exceção. No seio do espaço de exceção, pode-se exercer, sem mediação, a decisão soberana como autoridade absoluta. Ela se exerce sob a forma de um poder de vida e morte que se pronuncia de modo irrevogável.
Então, o que ocorre hoje no mundo contemporâneo é a predominância, enquanto estratégia ideológica de alguns países, da utilização do recurso ao estado de exceção, no qual os habitantes dos países, sujeitos a estas medidas, são despojados de todo estatuto político e reduzidos integralmente à vida nua. O homo sacer começa a se confundir virtualmente com o cidadão.

 

 

Par Barrosjose
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Jeudi 29 mai 2008 4 29 /05 /Mai /2008 12:46

                                          

                                        

O leitor entra no discurso daquele que escreve, se perde nas letras das páginas, não vê mais as letras da página, não sabe mais quando virou a página. Assim se dá o movimento do olhar e do desejo do leitor. Movimento contínuo que nos faz lembrar Jorge Luis Borges e seu rio de Heráclito.

Quando abrimos um livro, quando o livro se encontra conosco, ocorre um fato estético, que pressupõe um efeito estético naquele que lê. É no movimento de leitura que se dá este incessante cambiar do leitor e do livro. A cada leitura, o texto também se renova.  

Esta troca ininterrupta nos lança no rio de Heráclito. Borges diz que nós somos o rio de Heráclito:

 

O homem de ontem não é o homem de hoje e o de hoje não será o de amanhã. 

 

... e o texto também é esse cambiante río de Heráclito.



29 de maio de 2008

Par Barrosjose
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Mardi 27 mai 2008 2 27 /05 /Mai /2008 19:53


Um homem debruçado sobre o peitoril de um prédio em demolição observa

uma vista que não lhe pertence.

Um homem sobre o peitoril em demolição observa

uma vista que não lhe pertence.

Um homem em demolição observa

uma vista que não lhe pertence.

Em demolição, observa

uma vista que não lhe pertence.




27.05.08 

Par Barrosjose
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Dimanche 25 mai 2008 7 25 /05 /Mai /2008 20:53

O cinema atual passa por um momento desértico de idéias. Há alguns anos atrás, o filósofo Jacques Rancière disse que as idéias ficcionais no cinema estavam mudando de endereço, pois caminhavam para os documentários. No entanto, não compartilho inteiramente da posição de Rancière. É certo que as engrenagens do pensamento – me servindo de uma expressão do poeta Christian Prigent – estão enferrujadas, mas não só no cinema como também no próprio campo das idéias. A mesmice da comunicação impera. O vazio do campo das imagens nos consome e nos engole. Alguns cineastas contemporâneos trabalham conscientes dos efeitos alienantes das imagens. Entretanto, existem muitos que insistem no gozo estonteante da imagem-produto, da imagem-nada.

 

Maio de 1964: Recordo uma entrevista de Jean-Luc Godard com Michelangelo Antonioni.   Il deserto rosso (O deserto vermelho), seu primeiro filme colorido, estava sendo lançado. Godard publica a entrevista no Cahiers du Cinéma (n. 160).

 O que é que se narra hoje no cinema?, indaga Antonioni.

 Sinto a necessidade de exprimir a realidade em termos que não sejam realistas. A linha branca abstrata que entra no plano no princípio da seqüência da pequena rua cinzenta, me interessa mais do que o automóvel que chega.      

 

Maio de 2008: Cannes acolhe também a banalidade! Estamos em pleno Festival de Cannes. Harrison Ford e Steven Spielberg – os indianas jones – apresentam o cinema-espetáculo.

Depois de Guy Debord, sabemos que o espetáculo na sociedade corresponde a uma fabricação concreta de alienação. Ele nos explica: A expansão econômica é principalmente a expansão desta produção industrial precisa. E quanto mais o espectador contempla, menos ele vive. Quanto mais ele aceita se reconhecer nas imagens dominantes do espetáculo, menos ele compreende sua própria existência e seu próprio desejo.

 

Par Barrosjose
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  • : Les choses & les vestiges
  • Les choses & les vestiges
  • : vestiges Divers
  • : Este Blog apresenta parte de meu trabalho fotográfico, com a intenção de compartilhar um percurso de mais de 10 anos de fotografia. Além disso, a partir do início de maio de 2008, comecei a escrever uma coluna (Folhas Volantes) para o site Sibila - Revista de Poesia e Cultura (www.sibila.com.br).
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