Há um texto que se inventa em
memória de um outro vindo do
estrangeiro.
Antonin Artaud
O poeta deve estabelecer um método de trabalho para conseguir resultados inventivos em sua produção poética. Quando um poeta cria o seu próprio método de trabalhar, impondo um ritmo singular, ele se afasta dos modelos poéticos pré-estabelecidos.
Escrever um poema para Robert Creeley é como abrir uma picada num território virgem ou como traçar uma linha no espaço vazio. Ele se apóia em Ezra Pound para dizer que a poesia é uma forma cortada no tempo assim como a escultura é uma forma cortada no espaço. Além disso, o poeta trabalha – se afastando dos poetas norte-americanos que faziam poemas confessionais e de protesto – com frases ilógicas e muitas vezes elípticas, buscando um minimalismo.
Segundo Paul Celan, um poeta não pode deixar de escrever, muito menos se é judeu e seu idioma de escrita o alemão. Seus poemas foram feitos a partir de bocados de silêncio. Com Celan, a picada a ser aberta era uma picada necessária a sua sobrevivência. Em meio a ruínas, o poeta prosseguia seu trajeto de borda, traçando linhas em espaços contaminados pelo odor da morte. Em Celan, um espaço se abre além das coordenadas espaciais habituais. Ele busca na escrita encontrar um meridiano, e para isso trabalha em um desenraizamento da língua, além do canto. Neste trabalho, mesmo quando a destruição toca a língua, mesmo quando a língua está esgotada, esvaziada, o poeta se posiciona, com sua voz, reinventando a língua. O que surge deste movimento pulsional é uma língua viva.
No poema “O buraco”, Creeley apresenta algo de sua experiência. No início lemos: Há/ um silêncio/ a preencher... e em seu final: ...encha/ o vazio com/ você, buraco/ vazio. Este poema estabelece um vazio que está ‘preenchido’ com recordações fortes, de infância, de adolescência, voltadas para o lado escuro da existência. Mas as últimas linhas nos deixam a sensação de que o vazio da existência somente pode ser preenchido com o próprio vazio (João Almino – Sibila n.4. p. 66-67).
O vocábulo buraco do poema de Creeley nos aproxima do poeta francês Christian Prigent que pensa a poesia como uma tarefa de designação do real como buraco no corpo constituído das línguas. Assim, a poesia designa esse buraco desenhando aí, enfaticamente, as bordas. A estratégia do poeta é abrir um buraco, esburacar o campo da legibilidade e para isto, ele não só fura as imagens como também os discursos (o escrito vai ser produzido a partir do buraco). Prigent, em seus escritos, procura sempre desmontar representações, muitas vezes selecionando obras figurativas, telas ou fotografias que se propõem como tantas, a capturar partes do mundo. E recorrendo a um conceito psicanalítico ele acrescenta: A pulsão escópica do poeta desconstrói assim não somente as representações picturais e seu modo de significação, mas também a organização de toda referência.
Estamos aqui percorrendo um território poético de desfiguração das representações. Daí estar empregando o conceito lacaniano de real. O real começa lá onde o sentido escapa. Ele não é o mundo e não há a menor esperança de alcançá-lo pela representação. O trabalho do poeta contemporâneo é o de desmontar representações.
O poeta também deve estar atento à globalização e seus efeitos perversos. Ele pode fazer ‘alguma coisa’ para lutar contra esses efeitos da globalização uniformizante, o que Pierre Bourdieu chamou de o novo evangelho neo-liberal. Ele deve se opor a esta redução do mundo à sua obscenidade econômica (Jean Marie Barnaud), escrevendo forçadamente contra. Contra seu próprio assujeitamento, contra o que o mundo arquiteta de forças de alienação.
22 de outubro de 2008
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