Escrever o desejo de escrever – tarefa do escritor. Escrever, verbo sem complemento, diz Roland
Barthes.
O estilo apresenta um não saber que faz o escritor avançar, muitas vezes tateando no escuro.
O conceito de estilo abre uma via para pensarmos a escrita. Este conceito não pode ser reduzido a métodos técnicos ou a uma certa concepção estilística, coisa burocrática.
O estilo de um escritor é inseparável de um ponto específico do real. Este ponto designa exatamente aquilo que escapa ao campo da imagem e da representação. O ato da escrita presentifica este real.
No dia primeiro de fevereiro de 1852, Flaubert escreve a Louise Colet:
Semana ruim. O trabalho não andou; eu tinha chegado a um ponto em que não sabia mais o que dizer. Eram nuances e finezas onde eu não via mais nada, e é muito difícil tornar claro por palavras o que está obscuro ainda no pensamento. Fiz esboços, rasguei, chafurdei, tateei. Talvez eu me reencontre. Oh! Que coisa endiabrada que é o estilo!
O que está obscuro ainda no pensamento exige do escritor não só muito suor e angústia, mas também um desejo de escrever em movimento.
Na mesma carta, escrita quando estava às voltas com Madame Bovary, ele acrescenta:
Eu sou um homem-pena. Sinto através dela, por causa dela, em relação a ela e muito mais com ela.
A relação do escritor com seu instrumento de trabalho diz muito do estilo. É na complexa relação escritor-pena-mesa, nesta materialidade, ou como dizia Jacques Lacan, em sua moterialité (junção de materialidade e palavra), que o escritor escreve. O mot lacaniano fala também da materialidade do estilo de um autor. Essa matéria-palavra que aquele que escreve maneja, o faz fabricar textos. Nesse ato, ele se vê diante de um ponto especifico do real.
01 de novembro de 2008
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