Em 2004, Jacques Derrida participou de um Colóquio na Maison de France do Rio de Janeiro. Em momentos marcantes, Derrida nos ofertou sua palavra cheia de “humainisme” (palavra criada por ele para incluir o gesto do aperto de mão no termo já batido do humanismo).
Um aperto de mão equivale a um poema, afirma Paul Celan. Vale lembrar a carta de Celan a Hans Bender, na qual ele fala da esperança em um homem que ainda busca um caminho, esperança esta compartilhada por Derrida. Diz a carta:
Ofício é coisa de mãos. E estas mãos, por outro lado, só pertencem a um indivíduo, isto é, a um único ser mortal que com a sua voz e o seu silêncio busca um caminho. Só mãos verdadeiras escrevem poemas verdadeiros. Não vejo nenhuma diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema.
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No seminário O ato psicanalítico (06.12.1967), Jacques Lacan diz que, para os analistas, humano deveria se escrever hu-mano (HU-MAIN) com o traço de união condensando ‘humano’ e ‘mão’. Lacan assinala a importância da função da mão e sublinha que os analistas deveriam estar atentos a isso. Lembremos que Lacan, neste momento do seminário, estava falando sobre o psicanalista inglês Donald Winnicott e o objeto transicional.
A pequena ponta de pano ou de lençol que o infante carrega e se aferra com determinação, indica de alguma maneira a ligação com o primeiro objeto de gozo que, segundo Lacan, não é absolutamente o seio da mãe, que jamais está lá permanentemente, mas aquilo que está sempre ao alcance, a saber, o polegar da mão do infante.
Não podemos descartar o que a experiência nos mostra. A descrição que Lacan faz do objeto transicional é preciosa e sinaliza um caminho de aproximação com o objeto “a” lacaniano. Caminho que o próprio Lacan nomeia: então, toda esta descrição fina do objeto “a”, só lhe falta uma coisa, é que se veja que tudo o que se disse dele não quer dizer nada senão o broto, a ponta, a primeira saída da terra de quê? Disso que o objeto “a” comanda, a saber, o Sujeito. O Sujeito como tal, que funciona inicialmente no nível deste objeto transicional.
O objeto “a” tem uma relação muito próxima com o conceito freudiano de objeto perdido (das Ding). O objeto “a” está ligado (enquanto queda) à estruturação do sujeito como dividido Este sujeito que Lacan chama de ‘aparelho’ tem algo de lacunar, e é na lacuna que o sujeito instaura a função de um certo objeto, enquanto objeto perdido. É o estatuto do objeto “a” que está presente na pulsão. Ele é o vazio que a pulsão não cessa de contornar.
Podemos também definir o objeto “a” como aquele que ‘caiu’ do sujeito na angústia e que é designado por Lacan como objeto causa do desejo. Lembremos que no seminário A Transferência ele assinala que o sinal da angústia tem uma ligação absolutamente necessária com o objeto do desejo.
Este objeto não é um conceito apreensível de maneira direta. Temos que pensá-lo como resto que não é abarcado pelo simbólico. Um objeto que aponta para o limite, para o ponto de falha da estrutura significante.
Assim, a singularidade de um sujeito, na leitura psicanalítica, se presentifica quando o sujeito é atravessado pela angústia ou sua fala marcada por perdas.
09 de novembro de 2008
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