- Porque estás calada? Em que pensas?
- Não penso, ao menos não executo o que chamam pensar. Assisto ao inesgotável fluir do murmúrio.
As palavras da poeta argentina Alejandra Pizarnik no texto “Sala de Psicopatología” (Textos de sombra p. 413) nos convocam a pensar sobre o objeto “a”. Há neste fluir do murmúrio, neste exercício poético, uma referência ao objeto. O balbucio do poeta, nesse banho de palavras, evoca um objeto definitivamente perdido. Um objeto que carrega a perda da imagem e que visa o real, ou seja, visa se apresentar.
(Há também nesse inesgotável fluir do murmúrio uma referência ao desejo do sujeito em sua fundação. Esse desejo que se manifesta ao nível da voz).
O objeto “a” é um conceito que não conseguimos apreender de maneira direta. Precisamos pensá-lo como ‘resto’ que não é abarcado pelo simbólico. Ele é alguma coisa que está para além da cadeia simbólica, ou melhor, liga-se a algo que está no lado do real, do real do corpo. De fato, o objeto “a” se situa como objeto caído do corpo, promovendo assim a erogeneização dos orifícios corporais.
Sigmund Freud introduziu dois objetos pulsionais para falar desta erogeneização: os seios e as fezes. Jacques Lacan acrescentou mais dois objetos: o objeto vocal, na referência à voz e o objeto escópico, na referência ao olhar. A voz, com seu orifício, o ouvido e o olhar com a fenda palpebral. Assim, o objeto da pulsão oral é o seio, sim, mas quando o seio, aquilo que chamamos habitualmente de seio, não está mais lá. Os excrementos serão o objeto da pulsão anal quando forem efetivamente rejeitados, perdidos; o olhar será o objeto da pulsão escópica quando, no próprio local do ponto cego, o sujeito não ver mais. E, enfim, a voz será objeto da pulsão quando, de trovejante, se tornar baixa, como um murmúrio que se cala antes de terminar suas frases (J.D. Nasio. A criança magnífica. p 57).
A princípio isso implica em pensarmos o objeto da pulsão como separado do campo do Outro, arrancado do Outro. O objeto “a” se encontra perdido para o sujeito e se apresenta como um furo, um lugar vazio. Esse objeto é, nas palavras de Eduardo Vidal, o objeto definitivamente perdido, o vazio que a pulsão não cessa de contornar. Ele é a parte que, arrancada do Outro, constitui a própria perda do sujeito.
Lacan assinala que as pulsões são o eco, no corpo, da fala materna, e são o eco no corpo pelo fato de que há um dizer operando e este dizer, para que ressoe é preciso que o corpo seja sensível a ele.
As novas categorias introduzidas por Lacan, a saber, o olhar e a voz, estão referidas ao real. Como vamos pensar, então, estes objetos como sendo da ordem do real? Pensando-os como um furo pulsional. Esse furo é real.
Pizarnik, na continuação do poema diz:
Concha de coração de criatura humana,
coração que é um pequeno bebê inconsolável,
“Como uma criança de peito acalmou minha alma” (Salmo)
Em sofrimento atroz, a poeta se abre em desamparo. Só queria por fim à sua agonia. Ela se encontrava em um vazio de silêncio. Assim, a criação de um personagem se impôs. ‘Sombra’ aparece em seu ultimo livro, Textos de Sombra (escrito em 1972, mas deixado no arquivo, intitulado pela autora como INÉDITOS E ACABADOS). ‘Sombra’ é um espectro, em sua dupla significação, a saber, um fantasma e uma sombra. Mais adiante no texto, o personagem diz: eu fui essa criança que morreu.
16 de janeiro de 2009
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