Na década de 1960, Hannah Arendt escreveu um livro intitulado Homens em
tempos sombrios. O livro é uma homenagem aos homens que viveram os tempos do nazismo e do stalinismo. Arendt diz que, nesses tempos sombrios, a
própria humanidade do homem perde sua vitalidade na medida em que ele - o homem - se abstém de pensar.
Em uma perspectiva contemporânea, a partir de Theodor Adorno, encontramos o indivíduo se tornando moeda viva da economia. O homem se apresenta como um 'homo oeconomicus em um circuito cibernético de gestão de ofertas e de demandas' (Phillipe Boisnard). O Reino e a Glória (parafraseando Agamben) da economia impõem à subjetividade do ser falante uma alienação incontornável. Então, como contornar o incontornável? Como fazer borda, utilizando um termo caro a Jacques Lacan, ao real que se impõe a todo instante ao sujeito? E, por outro lado, como fazer face ao deserto do real - com os tamponamentos da subjetividade impostos pelo reality show e pela própria televisão, por exemplo - que também comparece, diariamente, na banalidade do mundo de hoje?
Na hegemonia econômica do mundo, a televisão tem um lugar cativo. A TV, com seu potencial
imagético, toma quase todos os espaços. O poeta francês Charles Pennequin, em sua crítica à ditadura econômica, nos coloca diante da televisão. É ela que nos pensa? Ou ainda temos algum espaço no
cérebro para pensar? Cito: Na TV estamos como em um buraco. Nos mantemos vigilantes. Ou bem é a TV que vigia. O poeta ironiza: não podemos fazer nada de bom se nós não temos cabeça. O efeito desse processo é uma alienação que, Pennequin, de forma singular, coloca em evidência em
seus poemas: pela perda do cérebro, por seu próprio esvaziamento.
No entanto, devemos também pensar que o homem tem condições de resistir a essa alienação que é determinada pela economia. Ele deve se manter de pé. Lembramos Paul Celan e a conjugação
verbal je maintiendrai do verbo maintenir (encontrada em algumas cartas de Celan à sua esposa Gisèle Celan-Lestrange) que é uma espécie de variação do verbo alemão stehen. A palavra stehen, quando utilizada sozinha, tem sobretudo o sentido de resistir, fazer face, permanecer
em pé com constância, não cair e manter-se.
Já maintenir quer dizer manter, sustentar, manter-se. Além disso, o Dictionnaire de l'Académie
française, neuvième edition (version informatisée) diz que esta palavra saiu do latim popular manutenere, precisamente tenir avec la
main (manter / segurar com a mão). Celan utiliza, ainda nas cartas a Gisèle, a palavra stehen em três variantes francesas: Eu assumo / Eu resisto / Eu recuso.
Os poetas contemporâneos resistem à alienação e à banalização do homem. Através da fabricação de
poemas, o poeta se coloca em uma linha de resistência, linha esta que traz à tona a possibilidade dele resistir à imposição econômica, a saber, à imposição deste novo evangelho neo-liberal (Pierre Bourdieu).
01 de março de 2009
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